O Museu Etno-Arqueológico de Itajaí é responsável pela guarda do acervo de populações humanas litorâneas mais antigo do Brasil — com remanescentes que chegam a pelo menos 8.600 anos — e agora passa a integrar uma pesquisa internacional voltada à análise de DNA antigo para reconstruir a história dos primeiros habitantes do litoral de Santa Catarina.
O projeto é coordenado pela arqueóloga e professora Andrea de Lessa Pinto, do Programa de Pós-Graduação em Arqueologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e tem como foco analisar materiais provenientes do Sítio Arqueológico Rua do Papagaio, em Bombinhas, atualmente sob guarda do museu itajaiense.
A pesquisadora destaca que a parceria já tem histórico consolidado.
“Essa parceria já acontece há mais de dez anos com o Museu Etno-Arqueológico de Itajaí, por conta de um sítio arqueológico muito interessante, escavado há mais de 20 anos no município de Bombinhas, mas que hoje está albergado aqui na instituição. Por conta desse interesse em torno do sítio e do material, nós mantemos uma cooperação acadêmica contínua ao longo desse período”, explica a pesquisadora.
A primeira etapa do trabalho será realizada nas dependências do museu, com seleção, catalogação e fotografia das amostras. Em seguida, o material segue para a Universidade de São Paulo, onde passa por processos de preparação e controle de contaminação antes da extração do DNA. Depois, será encaminhado ao Instituto Max Planck, na Alemanha, referência mundial em estudos de DNA antigo, onde será extraído o material para análise.
O arqueólogo Darlan Cordeiro destaca o papel institucional do museu na guarda e na liberação científica do acervo.
“O acervo arqueológico é patrimônio da União, por legislação. Então, o acervo que fica conosco pertence à União e, portanto, é regulado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)”, afirmou.
“Nós somos uma Instituição de Guarda e Pesquisa credenciada junto a esse órgão. Esse credenciamento se dá a partir de uma série de prerrogativas que a instituição precisa ter para justamente receber acervos arqueológicos e fazer a salvaguarda e também ceder para casos de pesquisas, como é o que está acontecendo aqui.”
Ele reforça ainda a relevância estrutural da instituição no cenário nacional.
“Nós somos a única instituição da região da AMFRI credenciada junto ao IPHAN, justamente por termos as condições de salvaguarda, tanto físicas quanto administrativas, por ter arqueólogo em seu quadro e toda essa infraestrutura para receber o acervo e também os pesquisadores.”
Para a gerente do museu, Lucy Anita Areas de Campos Otero, a participação no projeto reforça o papel da instituição na preservação da memória regional.
“É uma honra poder participar e receber a professora Andrea, que vem pesquisando esse acervo arqueológico de Santa Catarina, que é o mais antigo do litoral do Brasil. Esse projeto é de muita relevância, porque prestigia os nossos acervos e também a nossa história e memória cultural”, disse a gestora.
A pesquisa busca responder questões fundamentais sobre a ocupação do litoral brasileiro, os deslocamentos populacionais ao longo de milhares de anos e as conexões entre diferentes grupos pré-colonias. Além da datação dos remanescentes, o sequenciamento genético permitirá comparações com outros estudos internacionais.
O material analisado em Santa Catarina será integrado a bases globais de pesquisa em arqueogenética, incluindo análises conduzidas na Alemanha, ampliando o alcance científico do estudo.
Com isso, o Museu Etno-Arqueológico de Itajaí se consolida como uma das principais instituições de referência em arqueologia no estado de Santa Catarina, atuando não apenas como guardião de um dos acervos mais antigos do país, mas também como peça-chave em pesquisas que ajudam a reconstituir a história dos primeiros povos do continente sul-americano.