O setor de logística, transportes e serviços portuários — essencial para a movimentação de frotas e o fluxo de cargas na região de Itajaí e Navegantes — enfrenta um gargalo financeiro da porta para dentro: o estrangulamento do fluxo de caixa.
A combinação entre juros corporativos elevados, forte exigência de garantias por parte das instituições financeiras e os prazos dilatados para o recebimento dos fretes (que variam de 30 a 90 dias) tem pressionado a liquidez das empresas da cadeia de suprimentos.
O cenário é confirmado por indicadores macroeconômicos recentes. Dados das Estatísticas Monetárias do Banco Central apontam que as concessões de crédito livre para Pessoas Jurídicas seguem sob ritmo seletivo, influenciadas pelos elevados patamares do Indicador Serasa Experian de Inadimplência das Empresas. Para se proteger do risco de calote corporativo, os bancos de varejo aumentaram as exigências para liberação de capital de giro, travando o acesso de pequenas e médias empresas do setor produtivo.
De acordo com analistas da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), essa lentidão na transmissão da política monetária para o crédito real deriva do comportamento defensivo das instituições financeiras e das expectativas do mercado. Para o economista e professor da Univali, José Osvaldo Coninck, o mercado projeta juros de longo prazo pressionados por incertezas fiscais e inflacionárias. "O Banco Central controla a taxa de curto prazo, mas o crédito corporativo é balizado pelas taxas de longo prazo. Como há pressões no radar, o sistema bancário mantém a precificação do crédito em patamares elevados por precaução", explica Coninck.
EXIGÊNCIA DE GARANTIAS E MIGRAÇÃO PARA O MERCADO DE CAPITAIS
Além da taxa de juros, a restrição de recursos é ampliada pela baixa concorrência bancária e pelo endurecimento das normas de risco. É o que aponta o economista e professor do curso de Relações Internacionais da Univali, Daniel da Cunda Corrêa da Silva.
"O elevado volume de dívidas corporativas fez com que os bancos comerciais endurecessem os critérios de concessão, aumentando as exigências de garantias reais para proteger seus balanços", analisa Cunda. "A busca por fundos e estruturas de antecipação de recebíveis consolida-se como uma das poucas vias ágeis no momento diante da restrição do crédito bancário de balcão. Trata-se de uma estratégia de gestão para preservar a liquidez das empresas", completa.
A migração citada pelo especialista reflete-se nos boletins da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), que mostram a consolidação dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) como uma das principais ferramentas de captação de recursos no segmento B2B, superando a morosidade dos financiamentos tradicionais.
No dia a dia do setor logístico e portuário, onde despesas com combustível, manutenção de frotas, pedágios e folha de pagamento são pagas à vista, o descompasso de caixa exige soluções imediatas. Para Luís Carlos Schneider, diretor-presidente da SP Capital — FIDC sediado em Itapema —, essa movimentação do mercado reflete a busca dos empresários por eficiência financeira e sustentabilidade operacional.
"A operação logística do litoral norte roda contra o tempo e não pode esperar pela burocracia das esteiras bancárias tradicionais. O que vemos hoje no mercado B2B é que as empresas não procuram apenas crédito, mas sim parceiros que entendam a dinâmica do seu caixa. A antecipação de recebíveis permite transformar contratos e duplicatas em liquidez imediata, garantindo que o fluxo de transporte e armazenagem não pare por falta de capital de giro", destaca Luís.
A expectativa de especialistas é que, enquanto o sistema bancário mantiver a retenção de crédito e a alta exigência de garantias, as operações de crédito estruturado via FIDC continuem se consolidando como a principal engrenagem financeira para sustentar o ritmo do ecossistema logístico e portuário catarinense.
Foto: Superintendência Porto de Itajaí