
POR: MÁRCIO FREITAS
Santa Catarina construiu sua força econômica sobre a indústria, o comércio exterior e uma logística que precisa acompanhar o ritmo de quem produz. O Estado abriga um dos maiores parques industriais do país, portos entre os mais movimentados do Brasil e uma rede de cidades que exporta de máquinas e motores a alimentos e têxteis. O que sustenta tudo isso, no entanto, ainda depende demais de um único modal: as rodovias. E quem circula pela BR-101, pela BR-470 ou pela BR-280 sabe o preço dessa dependência em congestionamentos, acidentes, custo de frete e perda de competitividade.
A ferrovia é a peça que falta para equilibrar essa conta. O transporte sobre trilhos move grandes volumes a custo menor por tonelada, emite menos carbono e desafoga as estradas, e é justamente o tipo de solução de que um Estado exportador precisa. O porto de São Francisco do Sul mostra o potencial: em torno da metade dos grãos que passam por ali chega de trem. Imagine o que aconteceria com a eficiência do complexo portuário da Babitonga se a malha fosse ampliada, modernizada e conectada às áreas onde a indústria e a logística mais crescem.
É nesse ponto que a audiência pública sobre a futura concessão da Malha Sul, conduzida pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), ganha peso para todo o Estado. A concessão deve ser leiloada em 2027 e vai definir, por décadas, quais investimentos entram no contrato e quais ficam de fora. Decisões desse tipo raramente se repetem. O que fica fora do edital tende a depender de aportes públicos, sempre disputados e incertos, o que pode adiar por anos obras que a economia já pede hoje.
O caso de Joinville ilustra bem o risco. A maior cidade catarinense, com 674 mil habitantes, é cortada pela ferrovia que leva grãos ao porto de São Francisco do Sul, e os trens de carga atravessam as zonas sul e oeste em meio ao tecido urbano. O contorno ferroviário, ramal de 17 quilômetros que tiraria as composições do perímetro urbano, teve as obras paralisadas em 2011 e segue sem data para retomar. Não há previsão de que ele entre na futura concessão, e o custo estimado de uma nova ferrovia ligando São Francisco do Sul a Itajaí, na casa de R$ 1,5 bilhão, dá a dimensão do desafio de financiar a expansão da malha sem um desenho contratual bem pensado.
A manifestação enviada pela prefeitura à ANTT vai na direção certa quando pede que a modelagem da concessão considere expressamente o contorno e preserve as condições para sua conclusão. Não se trata de uma demanda local isolada. A área de expansão urbana da zona sul, com 3,2 mil hectares às margens das BRs 101 e 280 e próxima ao complexo portuário, foi estruturada para receber indústrias, serviços e logística, e deve ser batizada de Polo Intermodal Babitonga. Um polo com esse nome e essa vocação precisa de ferrovia funcionando na porta, e concluir o contorno significa aproveitar investimentos públicos já realizados que hoje estão parados, sem retorno para ninguém.
Há ainda a retomada dos trens de passageiros, outro pedido da prefeitura. Joinville teve esse serviço até o início dos anos 90, e o país já tem exemplos, como a ligação entre Belo Horizonte e Vitória, de que o modal pode conviver com a carga e servir à mobilidade regional. Em um Estado com cidades médias tão próximas e economicamente integradas, o passageiro sobre trilhos pode ser um complemento valioso, ainda que dependa de estudos e de viabilidade própria.
Santa Catarina tem a chance de tratar a ferrovia como política de desenvolvimento, e não como remendo. A janela é agora, enquanto a modelagem da concessão ainda está aberta a contribuições. Que o setor produtivo, os municípios, o governo estadual e as entidades que defendem o crescimento do Estado falem a uma só voz e levem a Brasília o recado de que o Sul do país não quer apenas manter os trilhos que tem, mas construir os que vão sustentar a próxima etapa de sua economia. O contorno de Joinville é um bom ponto de partida para essa conversa, e uma obra que o Estado inteiro tem interesse em ver concluída.
MÁRCIO FREITAS é empresário do setor de comércio exterior e membro da ISC, entidade privada, sem fins lucrativos, criada em 2009 para promover e atrair investimentos para Santa Catarina. E-mail: contato@investingsantacatarina.com