A procura pelas oficinas de formação musical do Festival de Música de Itajaí cresce a cada edição. Em 2026, as vagas foram preenchidas em menos de dois dias e reuniu participantes de diferentes regiões do país. Além de Santa Catarina, as inscrições chegaram de Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo e Rio de Janeiro. O movimento mostra que o festival ultrapassou os limites da cidade e se consolidou também como espaço de formação e encontro entre músicos.
Para a diretora do Conservatório de Música Popular de Itajaí e coordenadora do Festival de Música, Liza Amaral, a formação é parte fundamental da proposta do evento. Segundo ela, a oferta gratuita de oficinas e workshops aproxima estudantes, músicos amadores e profissionais de professores e artistas de diferentes regiões do Brasil e do exterior.
“Essa formação democratiza o acesso ao ensino de qualidade. Oficinas e workshops gratuitos colocam o estudante, o músico, o próprio amador e o profissional em contato com mestres, músicos e também ídolos”, explica Liza. Para ela, além de qualificar os participantes, as atividades ajudam a fortalecer a cena musical local, os espaços de formação e a cadeia produtiva da música.
Uma formação que começou nas primeiras edições
O músico e cineasta Guilherme Ledoux conhece esse processo de perto. Em 2000, durante a terceira edição do festival, ele participou das oficinas em busca da oportunidade de estudar com nomes que admirava na música brasileira.
“Era a terceira edição do festival e eu lembro que, na época, era super impactante a projeção do festival no estado, porque era muito comentado. Era um sonho de todo músico, todo musicista do estado, ter um lugar assim para poder estudar e ter contato com os grandes mestres da música brasileira”, lembra.
Naquele período, o evento oferecia as chamadas Oficinas de MPB. Ledoux estudou com o percussionista carioca Guilherme Gonçalves e participou de uma oficina com Robertinho Silva, um dos grandes nomes da bateria e da música brasileira. O contato com o músico teve um significado especial para ele, que já conhecia seu trabalho por meio dos discos de vinil.
“Quando eu o vi pessoalmente, com aquele sorriso dele, foi algo que me emociona de lembrar, porque é o tipo de experiência que não dá para descrever, a gente sente”, recorda.
Desde então, Ledoux retornou ao Festival de Música de Itajaí em mais de dez edições. Para ele, a experiência proporcionada pelo evento não se limita às horas de oficina. Os shows, as apresentações de grupos locais, as jam sessions e os encontros entre músicos também fazem parte do processo de formação.
Mais de duas décadas depois daquela primeira oficina, Guilherme reconhece no festival uma das bases de sua trajetória profissional. Ao longo da carreira, integrou diferentes grupos e formações em Florianópolis, atuando com orquestras sinfônicas, óperas, música instrumental, música autoral, choro e manifestações da cultura popular brasileira.
Hoje, é músico, educador e cineasta, com 30 anos de carreira. Integrou a Orquestra Sinfônica de Santa Catarina, a Orquestra de Choro Campeche, a Orquestra Camerata e Os Skrotes. Como educador, atua há 25 anos e já formou mais de 100 alunos. Também dirigiu o documentário Sistema de Animação, vencedor do Grande Prêmio da Mostra do Filme Livre de 2009, e é autor do livro Bateria no Choro, resultado de mais de 20 anos de pesquisa e considerado a primeira obra dedicada à sistematização da bateria no gênero.
Formação que se renova
Em 2026, o Festival de Música reúne 20 oficinas e três workshops gratuitos, distribuídos por diferentes áreas da formação musical. A programação contempla instrumentos, práticas coletivas, composição, tecnologia, produção musical, harmonia, arranjo e educação.
Para Liza, a diversidade ajuda a explicar a procura pelas atividades. “Essa junção de diferentes professores e diferentes eixos de aprendizagem, que lidam com tecnologia, estrutura da música, instrumentos específicos, práticas coletivas e repertórios de MPB, jazz e choro, contribui muito para o aprimoramento que cada estudante procura”, afirma.
A participação nas oficinas também proporciona contato direto com diferentes métodos de trabalho e linguagens musicais. De acordo com Liza, os participantes ampliam repertórios, desenvolvem autonomia e criatividade e têm a oportunidade de construir novas redes de contato.
“Ele se aprimora técnica e artisticamente. Amplia o repertório, conhece diferentes linguagens, estilos profissionais e formas de expressão. A troca com os participantes e professores também favorece a construção de redes de contato, novas parcerias e novos projetos”, explica Liza.
É justamente essa combinação entre aprendizado, convivência e oportunidades que mantém a formação como um dos pilares do Festival de Música de Itajaí. A cada edição, novos estudantes chegam à cidade em busca de conhecimento e contato com profissionais que admiram. Alguns, como Guilherme Ledoux, retornam anos depois não mais como alunos, mas como profissionais formados em uma trajetória que também passou por Itajaí.